Artigo de Opinião: O coronelismo eletrônico e o latifúndio da verdade em Sergipe

Artigo de opinião do Tribuna de Sergipe analisa dados públicos sobre a concentração da mídia local nas mãos da família Franco e os riscos para a democracia.

Artigo de Opinião: O coronelismo eletrônico e o latifúndio da verdade em Sergipe
Foto: Internet

(Aviso: O texto a seguir é um artigo de opinião e reflete exclusivamente o posicionamento editorial institucional do jornal Tribuna de Sergipe).

No jornalismo, a pergunta mais importante quase nunca é "o que está sendo dito?", mas sim "quem está dizendo?". Para nós, do Tribuna de Sergipe, a resposta para essa segunda pergunta revela um sintoma crônico da nossa arquitetura de poder local: a extrema concentração midiática. Um levantamento documental minucioso, analisado por nossa redação, escancara que a pluralidade de vozes na grande mídia sergipana é uma ilusão de ótica.

Os registros demonstram, de forma inquestionável, que o principal jornal impresso diário (Jornal da Cidade) e as duas emissoras de televisão de maior penetração no estado (TV Sergipe e TV Atalaia) operam sob o controle de diferentes ramos de uma histórica oligarquia: a família Franco.

Nossa leitura é que essa engrenagem não foi montada ontem. A raiz desse domínio remonta às décadas de 1960 e 1970, período em que o patriarca Augusto do Prado Franco — médico, empresário e posteriormente governador biônico — iniciou a expansão do clã para o setor de comunicação, consolidando concessões durante o regime militar. De lá para cá, o império dividiu-se em fatias como o Grupo Antônio Carlos Franco, o Grupo Sergipe de Comunicação e o Sistema Atalaia.

O Conflito de Interesses como Regra Em nossa opinião, a gravidade dessa concentração vai muito além da audiência. Estamos falando de um clã que não apenas dita a pauta da imprensa, mas que acumula um histórico imenso de poder. A mesma árvore genealógica que assina os telejornais também responde por usinas de açúcar seculares (como a Usina São José do Pinheiro, com quase 4 mil hectares), indústrias com contratos governamentais e um longo currículo de ocupantes de cargos públicos.

Como garantir a independência jornalística quando o veículo que deve fiscalizar os incentivos do Estado pertence à mesma família que se beneficia de renúncias fiscais milionárias documentadas pela Controladoria-Geral da União (CGU)? Para o Tribuna, o "coronelismo eletrônico" em Sergipe não é apenas uma teoria acadêmica; é a realidade transmitida para as casas de mais de 2,3 milhões de habitantes.

O Posicionamento do Tribuna Entendemos que esse arranjo estrutural representa um risco crítico à democracia. Quando o contraditório é filtrado por interesses familiares, a população é privada do seu direito à informação isenta.

É exatamente contra esse latifúndio da informação que veículos independentes resistem. Iniciativas como o Mangue Jornalismo provam que há necessidade vital para reportagens que nasçam fora das redações atreladas ao poder político.

O Tribuna de Sergipe firma, com este artigo de opinião, o seu lugar nesta trincheira. Nós não temos políticos de estimação e não herdamos canais de televisão na ditadura. A nossa redação não existe para proteger oligarquias, mas para expor a matemática incontestável dos fatos. A verdade não pode continuar sendo uma herança de família.